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Patrícia Lânes*
Nos últimos
três anos, o debate sobre
a necessidade de definição
de um campo especial de políticas
públicas destinadas à
juventude se intensificou no Brasil.
No âmbito do Executivo federal
pode-se destacar a criação
da Secretaria Nacional de Juventude
e do Conselho Nacional de Juventude
em 2005. O Legislativo federal criou,
em maio de 2004, a Comissão
Especial de Políticas Públicas
de Juventude da Câmara dos
Deputados (Cejuvent).
A Cejuvent realizou
várias audiências públicas
em Brasília para ouvir especialistas
e representantes de organizações
e movimentos sociais envolvidos(as)
com o tema da juventude e elaborou
o Plano Nacional de Juventude (PNJ)
na forma de Projeto de Lei (PL 4530/04).
O texto foi levado
por parlamentares integrantes da
Cejuvent a debate em seminários
regionais durante 2004. Agora, a
comissão está elaborando
um substitutivo ao texto original
do projeto. Nos dias 30 e 31 de
março, acontecerá,
em Brasília, o Seminário
Nacional de Juventude, como mais
uma etapa do processo de "escuta
da sociedade para a elaboração
do PNJ"1.
Delegados(as) eleitos(as) em seminários
regionais realizados desde meados
do ano passado estarão presentes
em Brasília. Comparecerão
também representantes de
grupos, organizações
e movimentos que discordam da maneira
como alguns seminários regionais
foram realizados. Reconhecendo a
importância da elaboração
de um Plano Nacional de Juventude
que espelhe as demandas de setores
diversificados da juventude, irão
levar contribuições
e propostas, sem deixar de lado
um olhar crítico sobre o
processo.
Consultas conturbadas
Os seminários regionais e
nacional não têm caráter
deliberativo, mas consultivo. São
tentativas da Cejuvent de coletar
contribuições junto
à sociedade, buscando tornar
o plano reflexo de seus anseios
e demandas.
A primeira rodada
de consulta aconteceu em 2003 e
2004, a partir de uma versão
preliminar do plano. Já nesse
primeiro momento, as consultas realizadas
em diversos estados foram bastante
conturbadas e bem pouco representativas
das juventudes locais.
A condução
do seminário nacional, em
2004, apenas confirmou o que vinha
ocorrendo em muitos estados: muitas
disputas, poucas propostas e pouquíssimo
interesse de parlamentares em investir
em metodologias capazes de garantir
a participação efetiva
de setores diversificados da juventude
brasileira.
Muitas pessoas e grupos denunciaram
a forma como o processo vinha sendo
conduzido, procurando encará-lo
como momento de aprendizado dentro
da muito recente discussão
de políticas públicas
de juventude no Brasil.
Com a consolidação
da temática por meio da institucionalização
de espaços para as políticas
públicas de juventude no
Executivo nacional, era de se esperar
que, nesse momento de consulta,
houvessem avanços significativos
no processo e no debate. No entanto,
não é isso o que se
nota.
Deputados(as) de
vários estados onde vêm
sendo realizados seminários
desde o final de 2005 reproduzem
os mesmos equívocos na condução
do processo, que vão desde
o total desinteresse até
a apropriação partidária
de muitos seminários.
Fóruns, setores dos movimentos
juvenis e organizações
da sociedade civil de diversos estados
como Amazonas, São Paulo
e Rio de Janeiro, para ficar em
alguns exemplos, denunciaram a forma
de condução dos processos
e organizaram (ou ainda estão
organizando) atividades, oficinas
e seminários paralelos àqueles
de deputados(as) numa tentativa
de ampliar o debate, colocando em
evidência as falhas do processo
e buscando interferir diretamente
no plano.
No Rio de Janeiro,
como em outros estados, diversos
setores da juventude fluminense
não ficaram sabendo do "seminário
oficial" – realizado
em 9 de março, em Volta Redonda
– e buscaram organizar evento
alternativo, que acontece em 28
de março, a partir das 14h,
na Uerj (Auditório 111/ 11º
andar), organizado pelo Fórum
de Juventudes do RJ em parceria
com outras instituições
como Ibase, Observatório
Jovem do RJ/UFF, Rede Jovens Brasil
– Direitos Sexuais e Direitos
Reprodutivos, Instituto de Imagem
e Cidadania, Viva Rio, Comissão
de Juventude da Alerj etc.
É importante
saber que, nesse caso, as contribuições
e críticas ao plano tiradas
no seminário irão
se somar àquelas do "seminário
oficial", ou seja, àquele
organizado por um dos deputados
federais que representam o Rio de
Janeiro na comissão.
No âmbito federal,
houve a tentativa de aproximar a
comissão do recém-criado
Conselho Nacional de Juventude –
os(as) atuais conselheiros(as) tomaram
posse em agosto de 2005. No conselho
foi tirada uma comissão para
acompanhar os trabalhos da Cejuvent,
buscando contribuir para uma interlocução
crítica entre conselho e
Legislativo.
O relatório
da comissão do conselho (pág
1 e pág 2) ressalta a importância
da criação de um Plano
Nacional de Juventude, mas relata
as dificuldades encontradas nos
seminários estaduais e a
falta de interação
da comissão com o conselho,
que não disponibilizou a
listagem dos(as) delegados(as) eleitos(as)
nos seminários já
realizados ou suas atas, nem o substitutivo
do plano para que os(as) conselheiros(as)
pudessem se preparar para audiência
realizada em 9 de março com
presidente e relator da Cejuvent.
A audiência reforçou
a idéia de que o processo
parece importar menos do que os
resultados. A seguir, o conselho
votou pela não participação
oficial no seminário nacional
a fim de não legitimar um
espaço construído
num processo bastante tumultuado
e sem o diálogo esperado
pelos(as) conselheiros(as). Isso
não impedirá a participação
individual dos(as) representantes
do conselho que queiram e possam
estar presentes.
É lamentável
que um importante momento na consolidação
de direitos da juventude e de diretrizes
para políticas públicas
capazes de garanti-los seja marcado
por mais erros do que acertos. É
certo que a democracia não
é algo acabado, mas se faz
no próprio processo que é
também um aprendizado. No
entanto, e por isso mesmo, é
necessário cuidar mais desses
processos para que se tornem contribuições
para a consolidação
da democracia.
A maneira como a
consulta para a elaboração
do PNJ vem sendo conduzida desde
2004 corrobora uma triste constatação
da pesquisa Juventude Brasileira
e Democracia – participação,
esferas e políticas públicas
(Ibase, Pólis, 2005): apesar
de acreditarem na política
para gerar e consolidar transformações
estruturais, 64,7% dos(as) jovens
não acreditam que políticos
defendem os interesses da população.
Na mesma pesquisa,
85% dos(as) jovens pesquisados(as)
concordaram totalmente que é
preciso abrir canais de comunicação
entre cidadãos(ãs)
e governo, o que indica que dão
importância a essa relação
e denota que os canais existentes
são desconhecidos e/ou insuficientes.
A maneira como muitos(as)
deputados(as) conduziram os seminários
em seus estados mostra um profundo
desrespeito com a juventude brasileira
em sua pluralidade e não
contribui para uma necessária
repactuação entre
jovens e políticos. Ao contrário,
reforça um abismo que muitos
políticos comprometidos com
a democracia, grupos e instituições
da sociedade civil vêm lutando
há décadas para superar.
Espera-se que ao
menos o seminário nacional
que acontecerá na próxima
semana (dias 30 e 31 de março
de 2006) em Brasília seja
mais sensível às vozes
dissonantes e se constitua como
espaço de participação
para setores da juventude dispostos
a contribuir com a formulação
de um Plano Nacional realmente democrático,
não só em seu texto
final, mas também no processo
de elaboração de tal
documento, para que seja mais participativo
e inclusivo.
Setores descontentes
de vários estados vêm
se articulando nos últimos
meses por meio do Fórum Nacional
de Movimentos e Organizações
Juvenis (FNMOJ) a fim de levar críticas
e contribuições conjuntas.
Após o seminário,
entidades, movimentos, grupos e
pessoas ainda terão 15 dias
para enviar suas contribuições.
Como se trata de um processo consultivo,
a decisão final do que entra
será, evidentemente, dos
deputados federais que fazem parte
da Cejuvent.
Por isso mesmo, é
fundamental que a sociedade esteja
atenta, pressionando a Cejuvent
para que o PNJ, mais do que um grande
mosaico de idéias e propostas,
possa ser a expressão de
demandas e necessidades de diferentes
setores da juventude.
*Pesquisadora do
Ibase e titular do Conselho Nacional
de Juventude
Nota de rodapé:
O Plano Nacional de Juventude traz
diagnósticos e diretrizes
para políticas de juventude
e pretende ser referência
para as políticas de juventude
nos próximos anos. Entre
os seus principais objetivos está
o de "incorporar integralmente
os jovens ao desenvolvimento do
país, por meio de uma política
nacional de juventude, voltada aos
aspectos humanos, sociais, culturais,
educacionais, econômicos,
desportivos, religiosos e familiares".
O documento está dividido
em 12 temas que buscam contemplar
questões que dizem respeito
diretamente à juventude brasileira.
(artigo originalmente
publicado em 23/03/2006 no site
do Instituto Brasileiro de Análises
Sociais e Econômicas –
Ibase)
Mais informações:
www2.camara.gov.br/internet/eve/juventude
www.redesejuventudes.org.br/
www.andi.org.br/
Patrícia
Lânes
Pesquisadora da Linha Programática
Democratização da
Cidade
Ibase - Instituto Brasileiro de
Análises Sociais e Econômicas
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