|
Chegou finalmente mais um carnaval. E
eu que pretendia escrever alguma coisa
sobre ele, mas não me sai da cabeça
um monte de músicas do Chico Buarque.
“Um dia afinal, tinham direito a
uma alegria fugaz, uma ofegante epidemia,
que se chamava carnaval. O carnaval, o
carnaval...
Vai passar...” Esta é uma
música que se deixar eu canto o
dia inteiro, sem me cansar e sem enjoar.
E é muito boa para lembrar que
continuamos, nós brasileiros, “levando
pedras feito penitentes, erguendo estranhas
catedrais” e que nesta época
do ano (só nesta?) viramos alienados:
não importa qual a sacanagem (no
mau sentido) que o governo e todo o mundo
pareça fazer com a gente, a gente
só consegue pensar em fazer sacanagem
(esta, no bom sentido). Bem, nem precisa
falar que antes da sacanagem é
bom lembrar em passar na farmácia
e comprar camisinhas, né? Pegar
uma doença sexualmente transmissível
ou encarar uma gravidez que você
nem esperava... É sacanagem!
Mas, já que falei de farmácia,
também é bom não
dirigir em hipótese alguma se você
pretende beber mais que dois copos de
cerveja neste carnaval. E drogas nem pensar!
Elas não são proibidas só
porque o governo ainda não conseguiu
cobrar impostos pelo seu consumo. Elas
acabam com você mesmo. Não
são do bem. Aliás, o álcool
quando em excesso também é
droga e não é do bem.
Sacanagem mesmo foi a Globo mudar de
“Globeleza”, mas ainda bem
que mantiveram a tradicional na vinheta,
pelo menos no começo. Aliás,
esta é uma das provas vivas da
hipocrisia brasileira. Se a Globo exibisse
em Junho, por exemplo, uma mulher nua
dançando uma música de festa
junina em pleno meio-dia, seria suspensa
por alguns dias. No carnaval pode, pode
ter bundas e seios de fora... Aliás,
pode ter tudo de fora. É bom para
nos lembrarmos que somos hipócritas
mesmo e que a nudez é linda. E
daí se estimula ao sexo? Todos
nós não adoramos sexo? Ah...
mas têm as crianças que não
podem ver tais “sem-vergonhices”.
Mas criança pode assistir ao Jornal
Nacional e ver as “sem-vergonhices”
que nossos políticos, empresas,
traficantes e mau caráteres de
plantão costumam aprontar bem na
nossa frente. Pode também saber
que existem outras crianças morrendo
de fome neste exato momento no país.
Que a maioria delas não têm
acesso à educação,
nem têm futuro. Isto é sacanagem
de verdade. Explícita e sem o menor
constrangimento.
Mudando o assunto: ‘Quem me vê
sempre parado, distante, garante que eu
não sei sambar. E quem me vê
apanhando da vida duvida que eu vá
revidar: tou me guardando pra quando o
carnaval chegar.’ Bem, o carnaval
chegou. Já me guardei o suficiente.
É hora de mudar e revidar. Não
fazer isto seria sacanagem comigo mesmo.
“Mas é carnaval, não
me diga mais quem é você...”
Mesmo que ninguém diga quem é,
vale uma última lembrança:
as pessoas no carnaval também têm
sentimentos. Continuam sendo pessoas,
reais, como você. Ah... E quem sabe
conseguiremos também diminuir o
número de brigas, mortes e acidentes
de trânsito no carnaval deste ano?
Se quiser fazer sacanagem, faça,
mas sem sacanear ninguém, tá?
Por
Vanderlei Martinelli
Poeta, escritor e analista de sistemas.
Foi articulista do NM entre dezembro de
2002 e maio de 2005.
|