Texto de Sueli Carneiro
sobre "Não Somos Racistas"
de Ali Kamel.
Acaba de ser lançado
o livro "Não Somos
Racistas", de Ali Kamel,
diretor-executivo da Central Globo de
Jornalismo. Produto de uma reflexão
que o autor vem construindo no calor das
disputas de opinião acerca das
cotas raciais para negros e indígenas
no acesso à universidade e em relação
às quais ele vem se posicionando
frontalmente contra em diversos artigos
no jornal O Globo. As idéias são
as de sempre: o risco das cotas promoverem
cisão racial na sociedade; não
há problema racial no Brasil, apenas
social; e a impossibilidade de determinar
quem é negro, porque somos um país
miscigenado.
Dentre
as menções apologéticas
ao livro de Kamel lê-se que "o
título do livro não é
uma negação de que o racismo
existe em todo lugar onde há seres
humanos, mas um gesto de indignação
contra a sugestão de que o ódio
racial seja um componente da identidade
brasileira". Então, há
racismo em todo lugar; no entanto, o dos
nossos compatrícios não
gera conseqüências sociais,
pois o ódio racial não seria
um componente da identidade brasileira,
senão não seríamos
um país miscigenado.
Isso permitiria concluir,
por exemplo, que há países
em que o ódio racial seria um componente
de sua identidade nacional. Ora, o ódio
racial não é componente
da identidade nacional de povo nenhum.
Racismo é apenas e somente um instrumento
de promoção de privilégios
e exclusões com base em supostas
superioridade, inferioridade ou simples
preferência racial; uma ideologia
passível de ser encampada em qualquer
tempo, lugar e conjuntura em que se pretenda
estabelecer e legitimar poderes e privilégios
de um grupo humano sobre outro. É
só e sempre disso que se trata
e o que ele sempre produz é somente
isso, hegemonia para um grupo e subalternidade
quando não também extermínio
para outro. E a manifestação
violenta do conflito racial é apenas
uma de suas possibilidades; há
outras mais sutis e, sob certos aspectos,
mais eficientes, em que as suas vítimas
ficam impedidas inclusive de mobilizar
a identidade racial em sua auto-defesa.
A utilização
da miscigenação como suposta
prova de ausência de racismo e discriminação
racial faz supor que em países
em que se praticou racismo legal ou que
viveram conflitos raciais explícitos,
a miscigenação tenha sido
um fenômeno ausente ou irrelevante.
Uma inverdade. Basta caminhar por cidades
americanas ou alemãs para verificar
a quantidade de negros de pele clara,
que aqui seriam classificados ou se autodeclarariam
brancos, pardos ou mestiços e que
lá são simplesmente afro-alemães
ou afro-americanos ou seja, negros. O
problema não está portanto
na miscigenação e sim na
classificação racial ou
de cor que se adota. Aqui, um tom mais
claro em relação à
negritude é saudada como a porta
redentora do embranquecimento ou da indeterminação
racial pela qual se decreta que temos
que renunciar a nossas cores e racialidades,
sob pena de estarmos nos insurgindo contra
o que segundo o autor há de melhor
em nossa identidade nacional, a ausência
das nossas cores e das nossas raças
sociais. Dessa perspectiva, a sua tentativa
de decretar a morte das cores e da racialidade
é a de negar o direito a uma identidade
que é forjada nas cores dos nossos
corpos que se tornam estigmas ou fontes
de privilégios a partir dos quais
se realizam as exclusões e as preferências.
É essa dupla negação
que é imposta, a do reconhecimento
da identidade e do tratamento diferenciado
que ela recebe na vida social. Boaventura,
em seu artigo "As dores do pós-colonialismo",
afirma que "só quem pertence
à raça dominante tem o direito
(e a arrogância) de dizer que a
raça não existe ou que a
identidade étnica é uma
invenção. O máximo
de consciência possível dessa
democracia hipócrita é diluir
a discriminação racial na
discriminação social".
Num país miscigenado
como pretende Kamel, em que a cor da população
seria algo indeterminado entre o branco
e o preto, encontra-se na programação
da TV Globo, e em especial em suas novelas,
uma das maiores densidades de olhos, peles
e cabelos claros por metro quadrado do
mundo. Como "não somos racistas",
essa presença quase escandinava
se deveria, segundo mais um dos apologistas
do livro de Kamel, a um mérito
que "a República tem tido
nesse pouco mais de um século que
está em vigor: não olha
a cor quando examina o talento".
Disso se conclui que a presença
minoritária dos negros e os personagens
irrelevantes ou caricatos que, em geral,
desempenham é o que corresponde
aos seus "talentos"!
Essa publicação
decorre de uma urgência conjuntural
e é produzida em tempo recorde,
com divulgação ampla e crítica
generosa garantida, para atender à
necessidade de reverter uma opinião
pública que, cansada das fábulas
e dos mitos que adoçaram as nossas
mazelas sociais, começa a preferir
encarar de frente essas questões.
Chegamos ao patamar de consciência
social em que não é mais
possível "tapar o sol com
a peneira". Vivemos num país
desigual, em que pobreza e riqueza têm
cor e por mais que isso nos incomode,
pelo que põe a nu a crueldade de
nosso "racismo cordial", já
não é mais possível
reiterar esse persistente faz-de-conta
Sueli
Carneiro , Doutora em Filosofia da Educação
pela USP e diretora do Instituto da Mulher
Negra (Geledés)
FONTE:
Rede de Discussões ENJUNE
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