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No dia primeiro de
outubro uma “bala perdida”
matava o menino Renan, de três anos,
na favela Nova Holanda. No último
mês foram cinco as crianças
mortas na mesma situação.
Agora, no dia 12 de outubro, “Dia
da Criança” a favela fez
uma manifestação com passeata
de luto e protesto. Esse ato recebeu o
nome “Viva a Criança Viva”.
Organizada por mais de vinte entidades
locais, de ONGs e outras instituições
ligadas aos Direitos Humanos, a manifestação
reuniu durante três horas cerca
de mil pessoas e percorreu parte da Avenida
Brasil e diversas ruas e favelas do Complexo
da Maré (Nova Holanda, Baixa do
Sapateiro, Parque União e Rubem
Vaz). Os fotógrafos da Agência
de Fotografia Imagens do Povo do Observatório
de Favelas, cobriram o evento.
Dessa vez não houve incidentes
com policiais do 22° Batalhão
da Polícia Militar da Maré.
A manifestação se encerrou
sem incidentes em frente a esse batalhão
da PM. A mãe de Renan, Roberta
da Costa Ribeiro, também participou
da manifestação e declarou
esperar punição para os
autores do disparo que atingiu seu filho.
Ela tem convicção de que
a bala partiu da arma de um policial militar.
As instituições locais pretendem
continuar com outros atos que ajudem na
organização da favela contra
a violência.
Percepção
Caminhei pela comunidade, junto com os
moradores. Andei grande parte em silêncio,
porque não sabia o que estava sentindo,
não pensava, era mais olhos que
cabeça.
Uma coisa que sempre me surpreende na
favela é a presença marcante
de mulheres e crianças. E jovens,
os que mais morrem de forma violenta.
Muitas crianças nos colos e pelas
mãos de mães, tias, avós.
Era do Dia da Criança, certo, 12
de outubro; mas também era o dia
do “Viva a criança VIVA”
na favela e a presença delas na
manifestação, nas ruas brincando,
nas janelas era tão marcante que
não conseguia parar de olhar para
as crianças e pensar que elas estavam
ali, com os adultos, numa manifestação
sem medo, que também poderia parecer
aos olhos delas uma festa que reunia seus
parentes adultos, instrumentos de percussão
como num bloco, cantorias, palavras de
ordem pedindo pela paz.
E mulheres. Muitas mulheres. A presença
majoritária, a voz ou o grito mais
audível e permanente em todo o
longo percurso da caminhada pela favela
e pela avenida Brasil, marcando de forma
insofismável a indignação
de todos pela morte de Renan e outras
vítimas inocentes de uma guerra
terrorista que não escolheram.
Respeito ao cidadão
Essa foi a passeata da legítima
defesa, da identidade, dos olhos nos olhos,
dos que se reconhecem como pertencentes
a uma coletividade, a um determinado local,
com suas especificidades, valores, crenças,
riquezas e fragilidades. Percebia ali,
perfeitamente, que eu era “de fora”,
por mais solidário que queria parecer;
era de fora porque não conheço
aquela memória que ali estava gritando,
não construí aquele espaço
hoje com casas e ruas calçadas;
não caminho por aquelas ruas, não
é ali que educo minha filha; não
fui humilhado pela polícia, nem
desconsiderado porque moro numa favela,
ou porque meu cabelo é mais ou
menos liso. Eu caminhava e senti inveja
por não pertencer a algo tão
visceral, como àquela manifestação
de parcela da nossa população,
de parcela da nossa cidade, que se manifestava,
que propunha ali sua luta a favor da vida.
Estavam lá todos que têm
a ganhar com uma nova visão de
segurança pública, de respeito
ao cidadão, de construção
da paz ao contrário do confronto
interminável proposto pela nossa
política de “ação
policial”. O curioso é que
aquelas vozes passavam do lamento e/ou
indignação para uma espécie
de euforia, o canto sempre fortalecido
pelos instrumentos de percussão,
o surdo, o tarol, o repinique... incansáveis
em mais de três horas de passeata.
Reflexão
Essa morte do Renan marcou a comunidade.
E a manifestação dava a
impressão de que eles, os moradores,
traziam novas dimensões às
suas vidas cotidianas, uma radical forma
de comunicação e interação
entre os participantes, outras maneiras
de apreensão da sua realidade,
novos horizontes e reconhecimento do seu
direito ao protesto, juntos, sem preocupação
com a cor da pele, o nível de escolaridade,
o nível de riqueza ou pobreza de
cada um, o local onde moram.
E ela certamente vai inspirar os moradores
além da manifestação,
dessa tocante mobilização
de protesto relevante e legítimo.
Eu ouvi moradores prometendo continuidade
na sua luta, movimentos sólidos
e duradouros.
Esperamos novas oportunidades de encontro,
outras ações que envolvam
os moradores em ações e
reflexões mais duradouras pela
paz. Reflexões que não percam
de vista aquele sentimento pleno de vitalidade
da passeata, certamente inspiradas e embaladas
pela memória daquele momento.
Uma rede de moradores indignados, “pleno
de direitos”, moradores da cidade
do Rio de Janeiro, que se articulam em
defesa da tolerância e dos Direitos
Humanos, que protestam contra a violência
sob qualquer forma, inclusive a letal.
Moradores em comunhão.
Fonte:
Observatório
de Favelas
Foto Index: A.
F. Rodrigues(OF)
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