O
momento é propício para debater
a relação dos jovens com as
eleições. O próximo
pleito se aproxima, a instalação
recente do Conselho Nacional de Juventude
trouxe novos ares de política pública
para a juventude e o eleitorado menor de
18 anos cresceu 39% nos últimos quatro
anos. A recente campanha da MTV “Ovos
e Tomates”, acusada de estimular o
voto nulo, jogou lenha na fogueira e colocou
o voto jovem com força na mídia.
A Ação Educativa convidou
um grupo heterogêneo de quinze jovens,
entre filiados a partidos políticos,
membros de grupos da periferia, militantes
de movimentos sociais e jovens ligados à
produção audiovisual para
debater o que eles estão pensando
deste processo eleitoral, como pretendem
agir e como encararam a campanha da MTV.
Na roda, a presença de Mauro Dahmer,
editor do programa Pacto MTV e criador da
polêmica vinheta. A campanha critica
a polarização eleitoral entre
um governo “sujo pela corrupção”
e uma “oposição que
pensa que todo mundo é idiota e não
se lembra do que fizeram quando estavam
no governo”, relaciona a corrupção
do congresso com a recente crise da violência
urbana em São Paulo e, ao final,
dá uma dica para enfrentar o horário
político eleitoral: “Prepare
seu saco, os ovos e tomates”.
Raquel Souza, assessora do Programa Juventude
da Ação Educativa, abriu a
roda defendendo a importância de a
sociedade incorporar a noção
de “direitos da juventude”,
já que “os jovens constituem
uma parcela da população que
demanda atividades específicas do
Estado”. Raquel destacou a carência
de políticas públicas desenvolvidas
para a Juventude.
Ela citou como exemplo o fato de que muitos
jovens brasileiros têm se preocupado
com a questão do desemprego e que
as iniciativas públicas estão
aquém da urgência para o tema.
“Além disso, os gestores consideram
que política de trabalho para os
jovens é formação.
Isso pode ser realidade para um jovem de
16 anos, mas e para os que possuem 24 ou
29 anos?”, indagou.
A assessora relatou ainda preocupação
de setores da juventude com a campanha da
MTV, que poderia estimular a despolitização
e o afastamento dos jovens da política,
num momento em que o movimento oposto deveria
ser incentivado.
Mauro afirmou que a idéia dos ovos
e tomates, “uma palavra de ordem que
sempre foi da juventude”, foi “destampar”
uma indignação latente na
juventude com os políticos atuais.
“No fundo, atacamos o horário
eleitoral, que mais uma vez não vai
falar de assuntos que realmente importam,
como juventude, aborto, drogas, união
homossexual, reforma universitária,
etc.”, disse. Mauro acredita que movimentos
estudantis, governo e oposição
“vestiram a carapuça”
ao reagirem tão veementemente à
campanha da MTV. A vinheta ficou famosa
após o prefeito do Rio de Janeiro,
Cesar Maia, se manifestar contra seu conteúdo
e disponibilizá-la na internet.
Clarananda Barreira,
da juventude do PT, definiu a campanha
como “muito vaga”. “Não
podemos generalizar, precisamos explicar
as estruturas que existem: como funciona
um partido, como funciona o Congresso...”,
defendeu. Ela acredita que uma parcela
dos jovens não quer discutir política,
mas outra parcela quer, e que a vinheta
não estimularia o debate político.
“Existem diversas reflexões
e inúmeras organizações
que pensam a política, mas a campanha
reafirma a idéia de que só
dois partidos monopolizam o debate”,
afirmou Emerson Lisboa, filiado ao PSOL,
que achou a campanha “maniqueísta”.
“Já que tá tudo escrachado,
vamos jogar ovos em todos – essa
foi minha impressão”, disse.
Já Paula Schnor, da juventude da
LBV, ponderou que “a democracia
está sofrendo, pois sonhamos com
alguém que vai resolver todos os
nossos problemas, e é importante
que a mídia reflita sobre a democracia
em si e a cultura política”.
Ela criticou a polarização
entre dois partidos, pois este é
o modelo político estadunidense
que, para ela, não deve ser seguido.
Anderson Castilho, o “Montanha”,
participante do projeto “Vídeo:
Cultura e Trabalho” (VCT), da Ação
Educativa, e morador de Cidade Tiradentes,
periferia de São Paulo, afirma
que uma pequena parcela dos jovens se
organiza para fazer política na
época das eleições.
“A maior parte não se envolve,
acha que tá tudo ruim mesmo, e
aí vem uma referência importante,
como a MTV, sugerindo o voto nulo, e eles
compram a idéia: pronto, agora
já sei!”, diz.
“Não se discute estrutura
da administração pública,
nem como funciona a máquina, nem
se discute política em si no horário
político. Acho que a MTV chegou
pra criticar isso”, afirma Haroldo
Nascimento, da Universidade Zumbi dos
Palmares. “Não sei se é
contradição, ou marketing,
mas acho que, pra falar de política,
a MTV teria que mudar muito”, rebateu
Diego Castro, também participante
do projeto VCT.
Mauro defendeu a emissora, citando o reconhecimento
internacional da campanha pela prevenção
da AIDS, o esforço para debater
o tema das drogas – que é
pouco ou nada debatido entre os legisladores
-, e o posicionamento contra a guerra
do Iraque. “A MTV sistematicamente
desenvolve uma programação
para falar de questões sociais
ao longo do ano, e reconhecemos que esta
campanha sobre as eleições
seria uma campanha de risco”, disse.
“Mas não foi a MTV que gerou
a frustração com os políticos.
Foram os próprios políticos”,
provocou.
Ele destacou que a MTV Brasil é
a emissora da rede que mais mobiliza esforços
para colocar a política na programação,
“pois o jovem brasileiro está
preparado para isso”, e que a função
de um veículo não é
apontar saídas, mas gerar o debate.
Mauro acredita que o panorama político
atual é grave, mas é otimista
em relação ao futuro. “Acho
a frustração positiva, porque
nós estávamos iludidos,
mas a reação toda é
um sinal de que nossa democracia está
avançando”, disse.
Fonte:
Site Ação Educativa
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